Compra de imóvel no Canadá
Quando se pensa em morar em outro país, salário é apenas uma parte da equação. O custo da moradia, a possibilidade de obter financiamento e o tempo necessário para formar uma entrada podem fazer uma diferença ainda maior na construção do patrimônio de uma família. Por isso, comparar simplesmente o preço de uma casa em dólares, reais ou pesos pode ser enganoso. Uma forma diferente de olhar para essa questão é perguntar: quantos salários mínimos são necessários para comprar o mesmo espaço em cada lugar?
Para fazer essa comparação, (apenas como exemplo, há variações regionais), consideramos um apartamento de 60 m² fora da região central de quatro grandes cidades: Québec City, São Paulo, Cidade do México e Bogotá. Os valores imobiliários são referências de mercado disponíveis em 2026 e não representam todos os bairros ou imóveis. Para Québec, o salário mínimo vigente é de CAD 16,60 por hora desde maio de 2026; considerando 40 horas semanais, isso equivale a aproximadamente CAD 2.877 brutos por mês. No Brasil, o salário mínimo é R$ 1.621; no México, aproximadamente MXN 9.582 mensais; e, na Colômbia, COP 1.750.905.
Quanto custa um metro quadrado em salários mínimos?
Fora do centro, o preço de referência por metro quadrado é de aproximadamente CAD 3.990 em Québec City, R$ 10.092 em São Paulo, MXN 36.167 na Cidade do México e COP 5,34 milhões em Bogotá.
Quando esses valores são divididos pelo salário mínimo mensal de cada lugar, a comparação muda bastante:
| Québec City | São Paulo | Cidade do México | Bogotá | |
|---|---|---|---|---|
| 1 m² em moeda local | CAD 3.990 | R$ 10.092 | MXN 36.167 | COP 5,34 mi |
| 1 m² em salários mínimos | 1,4 | 6,2 | 3,8 | 3,0 |
| Imóvel de 60 m² | CAD 239.400 | R$ 605.539 | MXN 2,17 mi | COP 320,1 mi |
| Preço do imóvel em salários mínimos mensais | 83 | 374 | 226 | 183 |
Em outras palavras, dentro dessa comparação, um apartamento de 60 m² em Québec City equivale a aproximadamente 83 salários mínimos mensais. Em São Paulo seriam aproximadamente 374, na Cidade do México 226 e em Bogotá 183.
A diferença não significa que uma pessoa que ganha salário mínimo necessariamente conseguirá comprar uma casa no Québec — os bancos avaliam renda, dívidas, crédito e outras despesas. Mas mostra algo importante: preço absoluto e acessibilidade são duas coisas diferentes.
E a entrada? No Canadá, ela pode começar em 5%
Esse é um dos pontos em que o sistema canadense chama atenção. Para imóveis de até CAD 500 mil, a entrada mínima pode ser de apenas 5%. Quando a entrada é inferior a 20%, normalmente é necessário contratar seguro hipotecário.
No exemplo do imóvel de CAD 239.400 em Québec City, uma entrada de 5% seria de aproximadamente:
CAD 11.970 = 4,2 salários mínimos mensais.
É uma diferença relevante quando o principal obstáculo para comprar um imóvel é justamente acumular dezenas de milhares de dólares antes de conseguir financiamento.
E há uma característica particularmente interessante para quem imigra. A CMHC possui regras específicas para newcomers. Residentes permanentes e, em determinadas condições, residentes temporários autorizados a trabalhar no Canadá podem ter acesso ao financiamento segurado. Não existe um período mínimo obrigatório de residência, e, quando o histórico de crédito canadense ainda é limitado, podem ser considerados relatório de crédito internacional, referência de instituição financeira do país de origem ou outras formas de comprovar capacidade de crédito. Isso não significa aprovação automática, mas facilita a integração de recém-chegados ao sistema financeiro canadense.
E quanto seria a prestação?
Para enxergar melhor a diferença, fizemos uma simulação, e não uma oferta real de financiamento. Consideramos um financiamento de 20 anos e as taxas hipotecárias indicativas observadas em 2026. Para Québec usamos 5% de entrada e incluímos na dívida o prêmio de 4% do seguro hipotecário correspondente a um financiamento de 90,01% a 95% do valor do imóvel. Para os três países latino-americanos usamos, apenas para tornar a comparação possível, uma entrada hipotética de 20%. As condições reais de cada financiamento podem ser bastante diferentes.
O resultado aproximado seria:
| Entrada utilizada | Entrada em salários mínimos | Parcela mensal estimada | Parcela em salários mínimos | |
|---|---|---|---|---|
| Québec City | 5% | 4,2 | CAD 1.493 | 0,52 |
| São Paulo | 20%* | 74,7 | R$ 5.270 | 3,25 |
| Cidade do México | 20%* | 45,3 | MXN 18.430 | 1,92 |
| Bogotá | 20%* | 36,6 | COP 2,89 mi | 1,65 |
* Os 20% usados nos três países latino-americanos são uma hipótese comparativa, e não uma afirmação de que essa seja obrigatoriamente a entrada mínima exigida nesses mercados. Há outros custos relacionados à posse de um imóvel.
É importante notar que a prestação não representa todo o custo de ser proprietário. No Québec, por exemplo, também devem ser considerados impostos municipais e escolares, seguro residencial, manutenção e, no caso de um condomínio, as taxas de condomínio. A própria CMHC leva despesas relacionadas à moradia em consideração ao determinar quanto uma família pode financiar.
Comprar ou continuar alugando?
Em Québec City, um apartamento de um quarto fora do centro aparece em torno de CAD 1.047 mensais, ou aproximadamente 0,36 salário mínimo mensal. Como referência, a prestação da nossa simulação ficou em aproximadamente CAD 1.493, ou 0,52 salário mínimo. Portanto, comprar não é necessariamente mais barato do que alugar no curto prazo. A diferença é que uma parte da prestação da hipoteca reduz o saldo da dívida e, ao longo dos anos, passa a representar patrimônio do proprietário.
Esse ponto é importante porque a escolha entre aluguel e compra depende muito mais do que da prestação mensal. Quem pretende permanecer pouco tempo em uma cidade pode preferir a flexibilidade do aluguel. Já uma família que pretende permanecer por muitos anos pode considerar a possibilidade de transformar parte das despesas mensais de moradia em patrimônio.
O governo também criou incentivos para a primeira casa
O acesso à propriedade tornou-se uma questão importante de política pública no Canadá e no Québec.
No âmbito federal existe a First Home Savings Account (FHSA), uma conta criada especialmente para quem está economizando para comprar a primeira casa. Atualmente é possível contribuir até CAD 8.000 por ano, chegando a CAD 40.000 ao longo da participação no programa. As contribuições podem ser deduzidas da renda tributável e, quando as regras são cumpridas, tanto os rendimentos dos investimentos quanto o saque para comprar a primeira residência podem ser isentos de imposto.
E em abril de 2026, o governo do Québec anunciou uma nova medida ainda mais direta: um crédito fiscal reembolsável para compradores da primeira residência, retroativo a 1º de janeiro de 2026. O programa pode devolver até CAD 5.875 dos direitos de transferência imobiliária, conhecidos popularmente como taxe de bienvenue. Segundo o governo, cerca de 38 mil compradores por ano deverão ser beneficiados, com ajuda média estimada em aproximadamente CAD 3.700 por família.
Isso não elimina o desafio da habitação. Pelo contrário: o próprio governo justifica algumas dessas medidas pela crescente dificuldade de acesso à propriedade. Preços são influenciados pela relação entre oferta, demanda, população, construção de novas moradias, taxas de juros e condições econômicas. Novas políticas habitacionais também podem surgir ou as atuais podem mudar com o tempo; por isso, incentivos existentes hoje não devem ser tratados como garantia de quais medidas existirão no futuro.
Afinal, uma casa é mais acessível no Canadá?
Nenhum indicador sozinho responde essa pergunta. O Canadá também vive um período de preços elevados de moradia, especialmente em determinados grandes centros. Toronto ou Vancouver, por exemplo, produziriam resultados muito diferentes dos encontrados em Québec City.
Mas a comparação em salários mínimos mostra algo que a simples conversão cambial esconde. No exemplo utilizado neste artigo, 60 m² correspondem a cerca de 83 salários mínimos mensais em Québec City, contra 183 em Bogotá, 226 na Cidade do México e 374 em São Paulo.
Para quem pensa em imigrar, isso ajuda a lembrar que escolher um país ou uma cidade não deveria depender somente de quanto se pode ganhar. O que realmente importa é o que aquela renda permite construir ao longo do tempo — moradia, patrimônio, estabilidade e qualidade de vida.
Fontes
Canadá e Québec: Canada Mortgage and Housing Corporation (CMHC); Financial Consumer Agency of Canada; Canada Revenue Agency; Gouvernement du Québec; CNESST.
Brasil: Governo Federal; FipeZAP.
México: Comisión Nacional de los Salarios Mínimos / Gobierno de México.
Colômbia: Governo da Colômbia / SUIN-Juriscol.
Comparações imobiliárias internacionais: Numbeo, dados disponíveis em 2026.